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“A piscina me salvou”

  • Carlos Eduardo Staff e Kauê Nunes
  • 14 de jun. de 2024
  • 4 min de leitura

Atualizado: 21 de jun. de 2024

Paratletas da Associação Bauruense de Desportos Aquáticos (ABDA), Rafael Grecco e Lucas Paschoal falam sobre desafios de suas trajetórias e a motivação que a natação trouxe para suas vidas


Paratletas se preparam para as próximas competições e contam um pouco de suas histórias. (foto: Carlos Staff)


Por Carlos Staff e Kauê Nunes


Se você for à Associação Bauruense de Desportos Aquáticos (ABDA) numa manhã de sexta-feira encontrará uma energia única proporcionada por pessoas que reúnem ali diversas motivações e objetivos para a prática da natação. E dentre elas, logo cedo, estão duas bastante particulares. 


Na primeira raia, na parte da piscina onde o sol bate, está Rafael Sanches Grecco, professor de geografia, completando uma volta. A cada batida de seus braços e pernas na água, ouvimos o  treinador  incentivando o atleta durante o percurso. Na chegada, o apito soa e o cronômetro pára, é hora da pausa. O nadador de 36 anos estava treinando para a primeira fase do Circuito Loterias Caixa, competição organizada pelo Comitê Paralímpico Brasileiro e uma das principais do país, mas a sua história com a paranatação é recente.


Em 2019, após ter concluído mestrado em climatologia, Rafael sofreu um AVC no hemisfério esquerdo do cérebro e desenvolveu afasia leve (dificuldade de se comunicar pela fala) e hemiparesia (paralisia dos movimentos) no lado direito. Meses depois, ele conheceu a ABDA por indicação de sua fisioterapeuta e começou a nadar pela equipe. “O que me salvou foi a piscina, existe um Rafael antes e depois do AVC”.


Antes de começar a competir, Rafael chegou a nadar por 5 anos durante a sua adolescência (foto: Kauê Nunes)


Com a pandemia do coronavírus no ano seguinte, tudo foi interrompido. O retorno dos treinos ocorreu só em 2021. Apesar de ter um dos lados do corpo paralisado, isso não é um impeditivo para que Grecco nade com  intensidade. Com ótimo desempenho, ganhou várias medalhas, dentre elas uma bronze no Campeonato Brasileiro de Paranatação em 2023.


Depois de percorrer várias voltas na piscina em diferentes estilos,  o treino acaba. Um bate-papo com o treinador Cadu Lanças fecha a atividade,  momento final para fazer um apanhado sobre o treino e o que pode ser melhorado para os próximos dias. Seguir  os conselhos dos  treinadores, e estar focado desde a  alimentação até a hora que o apito soa nas competições, é uma prioridade para Rafael. “Eu me cobro bastante. Faço tudo o que os técnicos pedem e pensando neles, mas sou eu e a piscina [na hora da competição]. Antes de competir, dá uma sensação de frio no estômago, mas some depois que pulo na água”.


Rafael tem como meta conseguir o índice que lhe permita participar dos Jogos Parapan-Americanos, mas isso não quer dizer que a carreira acadêmica ficou para trás. Como pesquisador, produziu três artigos somente neste ano,  ao conciliar a rotina de treinos com a de estudos.

Grecco conquistou 2 medalhas de prata e 2 de bronze na primeira fase do Circuito Loterias Caixa, realizado do dia 15 a 18 de maio em São Paulo. (foto: Carlos Staff)


“Não vivo da natação, mas vivo por ela”


As águas da ABDA também presenciam uma outra história de superação. Lucas Paschoal compete pela associação há 1 ano e 10 meses e também teve sua vida transformada pelo esporte.  Diferente de Rafael, seus obstáculos tiveram de ser superados desde muito cedo. Nascido com paralisia cerebral, as terapias foram a maneira que o nadador de 23 anos buscou para lidar com a deficiência. E para o atleta paralímpico, há uma terapia fundamental para lidar com suas questões motoras e mentais: a natação.


Tudo começou quando Lucas foi convidado por Cadu para fazer parte da ABDA. Apesar de nunca ter entrado na água nos tempos em que cursou Educação Física, ele aceitou  o convite do  treinador de maneira muito natural. Lucas, que já praticava esportes como o crossfit, viu na natação uma nova terapia em um ambiente leve e acolhedor. A soma desses dois fatores foi o diferencial para que ele tivesse uma rápida adaptação, algo inesperado de início.


O atleta conta que a competitividade, o desejo de vencer,  sempre fizeram parte de sua  personalidade. Quando ingressou na ABDA,  um componente essencial também passou a fazer parte de seu cotidiano: a felicidade.  Lucas faz questão de expressar este sentimento em todas as manhãs em que está praticando sua mais especial terapia.


Além de competir nadando, Lucas também já participou de campeonatos de polo aquático no seu começo na ABDA. (foto: Kauê Nunes)


Sua alegria transborda de tal forma na piscina que, logo ao perceber a presença dos “intrusos” que o fotografavam, tratou de perguntar, com um sorriso de orelha a orelha: “E aí, estão gostando do que estão vendo?”, como se fosse uma celebridade.


Lucas já sabe  como pretende atingir seus objetivos dentro do esporte: degrau por degrau. Como um rapaz comunicativo,  faz questão de compartilhar suas vitórias diárias com outras pessoas através de palestras, onde, com  sorriso sempre cativante, ensina lições de como ser vitorioso não somente nas águas, mas principalmente na vida.


Mas é no ambiente das águas que Lucas demonstra o que há de melhor em termos de superação. Ao final da entrevista, ele resume em uma única frase de maneira inspiradora  sua relação com o esporte: “não vivo da natação, mas vivo por ela”.

 
 
 

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