Mais que quadras
- Clara Alice e Carlos Eduardo Staff
- 14 de jun. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 20 de jun. de 2024
É importante falar sobre infraestrutura e investimento dentro do debate sobre o esporte, mas o acesso também precisa passar por um enfoque humanizado

Por Clara Alice Santos e Carlos Eduardo Staff
A importância do acesso ao esporte é de comum acordo no debate público. E ao falar sobre isso, se fala bastante de campo e quadra. As perguntas feitas são sempre as mesmas: a prefeitura fez mais quadras? Consertou os gols? E as respostas cotidianas: não; um pouco. A conclusão, portanto, só poderia ser uma: que a prefeitura faça mais — mais quadras. No entanto, aqui queremos trazer outras questões. As quadras que existem, quem é que consegue usá-las? Se são poucos os que têm acesso ao esporte hoje, seria apenas a infraestrutura o único problema? Em outras palavras, será que as pessoas conseguem usufruir das estruturas esportivas que existem?
Um trabalho louvável de prover acesso ao esporte e também à cultura é realizado pelo Sesc - instituição privada que promove atividades e serviços de maneira acessível para trabalhadores de diversos setores. Segundo o site oficial da instituição, todo brasileiro trabalhador do comércio com vínculo a empresas privadas têm direito à carteirinha e, portanto, às quadras, piscinas e academias. Mas não é difícil perceber que a maioria dos trabalhadores do comércio não exerce de fato este direito. E o motivo não é tão simples quanto dizer que a infraestrutura do Sesc é insuficiente. Uma parte dessas pessoas trabalha também em seus dias de folga, como freelancer e em outros estabelecimentos para complementar a renda. É o caso de Neuza, que tem a carteira assinada, mas trabalha também aos fins de semana. Se ela pensa no Sesc? Talvez, por causa das filhas, mas não teve tempo de ir atrás disso.
Quando conversamos também com Nicole, uma das funcionárias da unidade bauruense do Sesc, ficou mais fácil de entender como isso é um caso bastante comum. Todo funcionário tem direito a usufruir do que a instituição oferece e isso inclui acesso à infraestrutura esportiva Mas com a jornada de trabalho cansativa e mais as demandas pessoais, fica difícil remanejar o tempo para incluir a prática de esportes na rotina. Por mais que exista um esforço inicial de tentar praticar algum esporte, a rotina apertada faz com que a iniciativa se torne algo desanimador e a pessoa aos poucos vai deixando de lado este projeto.
Logo, nem sempre o problema se refere à falta de infraestrutura, mas sim à possibilidade de usufruir dela e inclusão dos sujeitos. Mesmo o esporte sendo parte da cultura brasileira, ele recorrentemente é colocado em segundo plano em favor de outros compromissos que, no caso de tantas pessoas, são prioritários. O esporte no Brasil é visto como uma forma de puro lazer ou entretenimento. É possível vê-lo também como luxo, existindo itens que passam da casa dos 500 reais. Você consegue encontrar um tênis de corrida custando quase mil reais, por exemplo. Mas na verdade o esporte é parte essencial de uma vida saudável, principalmente em um país em que 40,3% dos adultos são considerados sedentários, segundo o IBGE.
E isso é um sintoma dos tempos em que vivemos. Inseridos dentro de um mundo capitalista e que pouco se importa com o sujeito em si, somos obrigados a abdicar de gostos pessoais e até mesmo importantes, como o esporte, para tentarmos sobreviver em meio ao caos. Quantos talentos não foram perdidos porque não tiveram condições de se dedicar ao esporte ? No fim das contas, não estamos dizendo que garantir estrutura para prática de esportes não seja relevante. Muito ao contrário, é essencial. Mas essa estrutura não se resume em quadras e campos: trata-se também de garantir as condições para uma vida digna.
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